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Post: Histórias do Monge João Maria da Lapa
Armazenado nas categorias: Histórias, Lendas
Escrito em: 27 Sep 07
Autor do post: Baixinho
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Entre fins do século XIX e a primeira década do XX, o campo brasileiro viu-se sacudido por alguns movimentos populares. De norte a sul surgiram manifestações de cunho religioso, como se o país despertasse de uma enorme letargia.
Conselheiros no nordeste brasileiro (como Antônio Conselheiro, de Canudos, na Bahia) e monges nos sertões meridionais, vários personagens cruzavam os campos de lado a lado, medicando e aconselhando os caboclos, granjeando fama de milagrosos e poderosos. No interior do Paraná, uma figura que aparecia envolta em mistério, antes e durante os conflitos pela posse da terra na região sul do estado, na divisa contestada por Santa Catarina, foi um andarilho conhecido como o Monge da Lapa.
Na verdade, foram três os monges que freqüentaram a região, em momentos críticos da história de nosso país.
O primeiro surgiu em meados do século XIX, na década de 40, pouco depois das revoltas liberais que sacudiram o Brasil e pouco antes do término da Guerra dos Farrapos. O segundo marcou sua presença nos anos próximos à abolição da escravidão e do advento da República; em meio à Revolução Federalista temos o seu primeiro registro concreto. Finalmente, José Maria, o terceiro monge, surgiu em 1912, quando a Primeira República incentivava largamente a imigração e a construção de estradas de ferro, com contratos altamente vantajosos para as construtoras.
Entre os dois primeiros existia uma forte semelhança no proceder, a ponto de serem considerados uma só pessoa. “Num dos retratos que corre como sendo do ‘santo’, estampa-se a legenda: ‘João Maria de Jesus, profeta com 188 anos’ - como que a afirmar que os dois foram um só”.
As explicações de ambos terem utilizado o mesmo nome explica-se dizendo que o povo chamava todos os monges de João Maria. Não sendo João Maria não seria monge.
Ao assumir o nome de seu predecessor, João Maria de Jesus não forçava, conforme alguns autores, impostura, mas assumia para si a memória de santidade do primeiro monge. Místico também, ele encontrava assim uma melhor forma de penetração junto às populações interioranas. A mudança do nome marca o início de uma transformação na vida.
Apesar de utilizar os dois primeiros nomes de João Maria de Agostini, nunca tomou o último nome deste, do mesmo modo que nunca afirmou ser o mesmo que percorreu os sertões em meados do século XIX. Afinal, o santo dos sertanejos não era de Agostini ou de Jesus, “… há apenas um João Maria, e não só o João Maria do Contestado, mas o querido João Maria da devoção popular”.
Várias são as lendas que permanecem na memória de moradores do interior paranaense e que acabaram por conquistar as cidades, localizando-se em diversas camadas da população, trazidas pelo êxodo rural. Muitas das localidades de Santa Catarina, apontadas a seguir, pertenciam ao território do Paraná e foram repassadas ao estado vizinho após acordo que ratificou a divisão da região contestada, à época do presidente Wenceslau Braz, em 1916.
São lendas que dizem respeito à origem dos monges, lendas sobre profecias, punições, milagres e prodígios e finalmente lendas relativas ao fim dos monges. Estas lendas confundem os monges que as praticaram ou sofreram, sendo atribuídas ao monge simplesmente. Este caráter dúbio é parte da própria estrutura das lendas.
As lendas sobre profecias são também bastante extensas, a começar de seu próprio desaparecimento, quando terminasse sua missão, no morro do Taió, hoje território de Santa Catarina. Previu o aparecimento de uma cidade no local em que estava, o que efetivamente se deu após a definição do litígio sobre a fronteira; seu nome, segundo o monge, seria Santa Cruz, e a cidade chamou-se Cruzeiro e hoje é o município de Joaçaba, SC.
Teria previsto o advento da República alguns anos antes. Previu também, no estilo dos antigos profetas, os trens “Linhas de burros pretos, de ferro, carregarão o pessoal”. Depois deles, as guerras com as derrotas sucessivas dos sertanejos e os aviões “gafanhotos de asas de ferro, e estes seriam os mais perigosos porque deitariam as cidades por terra”.
Ao ser preso na Lapa, predisse castigos dos céus e um violento temporal sobre a cidade. Em duas cidades diferentes, Hamburgo Velho (RS) e outra do Paraná, ao ser apedrejado por crianças que o tomavam por mendigo, perdoou às crianças, mas disse, serenamente, que as cidades seriam apedrejadas como ele. Em ambos os casos, dias depois, uma chuva de granizo arrasou as plantações, castigando a cidade. Tal evento teria também acontecido na Lapa.
Consta como ponto turístico a famosa gruta de João Maria no município da Lapa.
Conta-se também que podia estar em dois lugares diferentes, orando em sua gruta e ao lado de uma doente que invocava por ele. Conta-se que podia ficar invisível aos seus perseguidores, atravessar a pé sobre as águas dos rios, e que suas cruzes cresciam – não só o corpo, como também os braços – ou brotavam 40 dias após o monge tê-las levantado.
Bastões, com a “medida do monge”, fincados em cada extremo de uma fazenda protegiam o gado contra doenças. As velas, feitas na medida do palmo do monge, afugentavam os maus espíritos e acalmavam as tempestades.
Às regiões de pouca fé do povo, predisse pragas, dizendo que aqueles que quisessem salvar suas roças deveriam plantar aquilo que desse sob a terra (tubérculos) - o que realmente aconteceu em Taquara Verde, município de Porto União, SC, dizimada por gafanhotos. Predisse que a localidade de Vila Nova do Timbó, por seu povo ateu, se transformaria num porungal, ou seja, suas terras perderiam a fertilidade. O lugarejo teria realmente regredido.
João Maria teria debelado, ainda, uma epidemia de varíola em Rio Negro, afastando a peste com rezas e com 14 cruzes plantadas como Via Sacra na cidade. Ainda hoje existe uma das cruzes na cidade: chama-se cruz de Mafra.
Diz-se que podia se fazer transportar no ar ou desaparecer quando a multidão que o cercava crescia em demasia.
Diz-se também que fazia surgir olhos d’água nos lugares onde pousava. Até hoje em cidades do sul do Paraná existem muitas fontes de água, às quais se atribuem fatos milagrosos e com muita crendice popular, as chamadas “fontes de João Maria”.
Em cidades do sul do Paraná as lendas do Monge João Maria são muito divulgadas boca a boca, principalmente por pessoas de mais idade, que as ouviram de seus antepassados e as transmitem a seus descendentes, dando-lhes muita credibilidade.
É uma das mais fortes lendas envolvendo fatos e lugares do Estado do Paraná.
OBS. : TRECHOS DESSE TEXTO FORAM EXTRAÍDOS DO SITE “PARANÁ DA GENTE” DA SEEC-PR



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